A sua imagem na minha caixa de correios

 

Por Valentina Rosset 

A sua imagem na minha caixa de correio (2024), de Silvino Mendonça, participou da 8ª Edição do Festival ECRÃ em sua etapa online, e da 19ª Mostra de Cinema de Ouro Preto. O realizador brasiliense passou anos de sua adolescência assinando a SET, revista brasileira sobre cinema que circulou no final dos anos 80 até meados dos anos 2000. Nela, seus leitores se candidatavam para trocar cartas e imagens sobre seus filmes e astros do cinema prediletos, e Silvino Mendonça foi um deles. 


Utilizando seu arquivo pessoal das revistas guardadas e cartas recebidas, assim como trechos de televisão do Oscar de 1999 com Fernanda Montenegro e de VHS de quando era criança interpretando Chaplin, ele emprega a montagem como uma brincadeira de descobrimento, uma extensão das colagens e recortes que realizava anos atrás. Assim, o filme não só compartilha um arquivo fascinante da era de celebridades e fã-clubes pré internet, mas também serve como uma exploração pessoal de um envolvimento profundo com o imaginário produzido pelo cinema.

 
Atento à materialidade do papel, ao design gráfico das páginas e às manchetes, Mendonça aponta não só ao sensacionalismo das figuras hollywoodianas, mas ao humor deliciosamente brasileiro na linguagem que, de primeira, me lembrou da icônica reportagem do Jornal Nacional sobre a família no interior de São Paulo que acreditava ser parente do Leonardo DiCaprio. Incorporação total das celebridades às projeções pessoais; um fascínio por suas imagens míticas e sobre-humanas que descola dos filmes e transforma-se naquilo que as pessoas bem entenderem. Fala-se de reencarnação, traição, parentesco, sexo, e assim por diante. 

Na primeira parte do filme, vemos imagens escaneadas dos anúncios publicados pelos leitores na revista. Há algo de provocativo e atraente em suas propostas; a maneira em que escrevem procurando alguém para se corresponder é como um convite a algo secreto, quase que um date anônimo. Desejos que se iniciam a partir de uma figura cinematográfica, mas vão muito além disso: a intenção aqui é compartilhar essas obsessões com outros, revelar seu amor por um astro de cinema para alguém desconhecido, nascido de uma fantasia dessas que ocorrem quando se está sozinho no quarto absorvendo imagens e olhando a sua própria. 

“Possuo amplo material de artistas nacionais e internacionais e troco por qualquer coisa sobre Leonardo DiCaprio.” 

 “Tenho Sharon Stone, Brad Pitt ou qualquer outro astro de cinema na tela do seu computador. Tenho um sistema que vai deixar você alucinado. Escreva-me.” 

“(...) Temos carteirinha, jornalzinho e muitos materiais importados.” 

 “Se você é fã e tem o endereço da atriz Julia Roberts, escreva-me.”


Assim como os títulos das reportagens tratam de uma linguagem sedutora e misteriosa (“Estes Belos Rostos Escondem Segredos que Podem Matar quem os Desvendar”), a forma em que as pessoas escrevem seus próprios anúncios na revista também operam da mesma maneira. “Se você tem isso, ou é aquilo, então venha” ‒ ou seja, aqui, esconde-se aqui um segredo, desvende-me, escreva-me. Impulso de ousadia, e também de libertação. Permissão para projetar os desejos nos famosos, porque sendo tão distantes, pode-se dizer tudo, pode-se confessar tudo. Afinal, é só cinema... 

Na segunda parte, intitulada de “cartas não têm voz”, somos apresentados às cartas enviadas ao realizador. Como o título sugere, ainda que os correspondentes revelem seus nomes e endereços vindos de diversas partes do Brasil, há também um senso de anonimato. O que se conhece são suas caligrafias, seus comentários sobre os filmes e as fotografias que trocam. Logo, a voz que as cartas ganham é a do radialista Alessandro Oliveira, escolha que me pareceu bastante bem-humorada. Sua leitura ecoa uma voz televisiva, imediatamente familiar: me lembra a de um dublador de filmes estrangeiros, que dá voz à diversos atores. Ainda que o tom da narração das cartas traga um certo distanciamento cômico, a simplicidade de como o filme é feito aproxima, trazendo sempre uma sensibilidade real ao imaginário relatado nos escritos. Afinal, a relação afetiva é para além dos astros: é entre os correspondentes, e o que eles revelam sobre si. 

“Menino, você tinha falado do ‘Talentoso Ripley’ e por isso achei que você fosse mais velho. Eu acabei de fazer 27 anos, quase o dobro da sua idade. E eu aqui falando das intimidades com o meu namorado, que vergonha. Bom, pelo menos agora você entende por que eu sou apaixonado pelo Jude Law, né? (...) Meu namorado não fica com ciúmes. Aliás, ele é apaixonado pelo Ewan McGregor. (...) Mas me conta, você gosta de garotas? Pela carta, achei que talvez você pudesse gostar de garotos também. (...) E me desculpa se eu estiver sendo intrometido. (...) Se você preferir, podemos falar sobre cinema mesmo”. 

A troca cartas entre desconhecidos é na verdade um veículo de confissões sem tabu, contatos livres com a sexualidade; possíveis porque anônimas, e porque, em primeira instância, tratam de cinema. É na brecha do anonimato, por exemplo, que entendemos Silvino adolescente conversando e tirando de seus correspondentes confissões sobre atrações por comédia romântica, e histórias que conversem com sua homossexualidade. Uma cinefilia amadora, no melhor sentido da palavra. Além disso, quando Oliveira narra “ele é apaixonado pelo Ewan McGregor”, ele tem dificuldade de pronunciar o nome do ator algumas vezes e repete a frase até seguir com o resto do voice over. Escolha sutil do realizador de deixar esse engasgo do radialista ali, mas que de bom tom aponta ao distanciamento pela da língua, quebrando com o formalismo do narrador e nos tirando algumas risadas sinceras de identificação.


A sua imagem na minha caixa de correios se envolve na própria brincadeira que estabelece. Seja nos recortes em papel, nas caligrafias, ou no dinossauro de brinquedo deslocado na janela enquanto um home varre folhas, ao ouvirmos sobre Jurassic Park; há um carinho de um tempo passado que permanece nos objetos físicos, independente do que está em volta. Dentre ao menos as 172 cartas referenciadas, me parece que o intuito delas, assim como o do realizador aqui, está presente na última. Através das cartas, ou desse filme, compartilhar com amigos à distância, semi-imaginários. Por que não me escreve mais? Porque desta caixa farei um filme.


(Abro uma tangente pessoal no espírito de correspondências que o filme estabelece

Curiosamente, escrevo no dia 4 de julho, em Los Angeles, a famosa sede Hollywoodiana. Ouço muitos fogos de artifícios estourarem desde ontem à noite, ainda que esteja num bairro majoritariamente de imigrantes latino-americanos e armênios. 

Alguns meses atrás, presenciei o Oscar de perto: a maior e mais assustadora quantidade de policiais armados que já vi na vida bloqueava totalmente as avenidas que circundam o Dolby Theatre, impedindo qualquer aproximação e intimidando manifestantes que erguiam cartazes denunciando a cumplicidade americana no genocídio palestino, mas especificamente chamando atenção ao ataque terrestre em Rafah-Gaza planejado para aquela noite. “Veja bem, o máximo que você pode chegar perto é do Jimmy Kimmel!”, disse um policial ao apontar para um anúncio enorme com a figura do apresentador em cima de um prédio na Hollywood Boulevard. Nas avenidas, só podiam circular enormes carros pretos de vidros escuros, e pessoas engravatadas sendo transportadas em carrinhos de golfe. Penso na fantasia que esse lugar tem que fazer de si mesmo para poder sustentar e penetrar suas celebridades mundo afora.

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